VI Concurso  -  Trabalhos Premiados: 1º, 2º e  3º Lugares - >> VOLTAR PARA HOME

Premiados

 

1o  LUGAR

 

EDITH ISLER

São Paulo - SP

 Hospital

 

            Devia ser no fim de outubro de 1955.

A lembrança mais remota é de um senhor falando suavemente comigo em alemão. Dava-me balinhas. De papel dourado e, antes do açúcar da balinha em si, havia uma camadinha de chocolate. A sua voz e o que ele deve ter dito me acalmaram. A mim, que já estava há quatro dias em estado de coma no isolamento do HC, com uma meningite.

Disseram-me que eu havia gritado muito quando saí do coma, chamando pela mamãe. Eu estava sozinha no quarto do isolamento. O Dr. Laus foi chamado, altas ho­ras da noite porque, finalmente, eu acordara.

Voltei a dormir, acordando às vezes, percebendo-me num quarto com luz amarelada.

Havia um visor na porta e por esse visor eu podia ver os médicos e as enfermeiras colocando as máscaras, as luvas e trocando os aventais. Assim se aproximavam de mim para me fazer beber, comer, aplicar injeções, tomar o pulso, medir a pressão, ministrar medicamentos.

Era uma movimentação contínua, interrompida por intervalos de absoluto silêncio, de absoluto confinamento, de negação total. Eu não podia mexer o meu corpo nem sentí-lo, eu era um cérebro cativo num corpo que não podia comandar.

 Daí pra frente, eu não entendia bem como, aparecia no visor o rosto da minha mãe. Só no visor. Era como se o rosto me quisesse dizer para eu ter fé e que ela estava feliz.

Depois, tudo se repetia: as entradas, as pessoas mascaradas, os remédios, as injeções, a higiene. Tudo mais era silêncio e luz amarelada. Quando chegava a sede era muito ruim, porque eu tinha que esperar alguém para me dar água e eu não podia fazer qualquer movimento.

Eu não chorava nem reclamava, só ficava esperando o rosto da minha mãe aparecer no visor. Só isso. Lá não havia diferença entre o dia e a noite, a luz amarelada era sempre igual, o silêncio era sempre o mesmo.

Entravam e saíam muitos médicos que batiam nos meus joelhos, cutucavam-me com uma agulha, mas eu não sentia nada, nada, nada... Tinha um que colocava uma luz muito forte nos meus olhos, eu não gostava, mas eu tinha que aquentar, porque eu nem conseguia mexer as minhas mãos.

Era preciso que uma enfermeira me desse à comida na boca, como um bebezinho, e eu sugava a água, o suco e o caldo por um canudinho mole.

A enfermeira Rosa gostava muito de mim, ela trouxe até afigura de uma menina para mim. Ela me tratava bem, assim como a Dona  Celsa, mas a Dona Eurídice não me tratava muito bem, perdia a paciência e gritava comigo. Depois eu fiquei sabendo que ela já tivera meningite duas vezes na vida. Credo! Será que eu também ia ficar daquele jeito um dia?

Eu já nem pensava mais em outras coisas como sol, céu azul, ruas, bonecas, livros. Eu só pedia a Deus que a enfermeira que me alimentava naquele dia não demorasse muito porque doía a fome em mim e a comida cheirava tão bem em cima do criado-mudo. Só que às vezes ela ficava lá esfriando, esfriando, parecia que nunca mais viria alguém para me ajudar.

Um belo dia avisaram que eu iria sair dali. Iria para uma enfermaria.

Lembro-me que me puseram na maca e percorremos inúmeros corredores daquele grande hospital. Finalmente fui colocada no quarto andar, das moléstias infecciosas, numa enfermaria que dava no fim do grande corredor.

A minha cama ficava justo em frente à porta, mantida sempre aberta, de modo que eu podia avistar tudo o que se passava do meu leito. Que alegria, que felicidade! Adeus , visor!

Lá na enfermaria havia janelas e a gente sabia se era dia ou se era noite, e o melhor de tudo é que ninguém usava a máscara nem trocava de avental para me ver.

Melhor que isso foi que daí para frente a minha mãe podia chegar perto de mim, me tocar, conversar. Ela tentou me explicar o que havia acontecido comigo mas eu nem conseguia entender nada. Bastava-me saber que ela, a minha mãe, tudo compreendia e aceitava, assim, então, para mim já estava muito bem.

Quando ela tinha que ir embora eles já davam o jantar e depois se repetia a seqüência de tilintar dos carrinhos das enfermeiras com os seus remédios, injeções, termômetros, medidores de pressão, etc.; mas era melhor, porque havia muitas mulheres na enfermaria e ainda duas crianças, a Celina – que era tão linda – e a Cecília, as duas provenientes do estado do Paraná, com o mal de Chagas.

Eu reparava na beleza do corredor do quarto andar, todo em pastilhas verdes e brancas,no lindo emblema do HC, com as letras entrelaçadas, gravadas nos talheres e nos copos de aço inox.

Minha mãe ficou assustada porque as minhas mãos estavam com uma grossa camada de células mortas, ela tentava tirar aquele cascão com um creme Nívea, mas não adiantava nada porque elas ficaram inertes por muito tempo. Também os meus calcanhares ficaram com umas bolhas pretas que eram as escaras. Ainda no fim da minha coluna tinha uma escara muito grande. Eu era pele e osso.

No dia de uma inspeção, as enfermeiras viram que o meu cabelo estava cheio de nós na nuca e então resolveram cortar tudo. Chorei.

Chorei sentida.

Eu não podia comer sozinha, nem beber, nem escovar os dentes, nem tomar banho nem nada, era só injeção e remédio. Eu me sentia um nada, eu tinha vergonha de precisar ser limpa como um nenê, eu via minhas mãozinhas cheias de cascão e agora, o cabelo também foi cortado. Aquela foi à única vez que eu chorei.

Tiraram fotografia da minha magreza.

Aos poucos, foram me mantendo sentada, aos poucos a sensibilidade das mãos e dos braços foi sendo recuperada.

Tão bom!

Tão bom poder comer, beber e escovar os dentes sozinha!

Tão bom poder ajudar as enfermeiras a fazer bolinhas de algodão para elas usarem com álcool antes de aplicarem as injeções!

Mamãe só sorria.

Papai, que todas as noites ainda dava uma passada no hospital, estava feliz.

Eu até já escrevia cartas para as colegas de quarto que vieram do Nordeste e que eram analfabetas. Elas eram mulheres muito simples e pareciam crianças grandes. Com os meus apenas dez anos, eu era mais evoluída do que elas.

E assim passavam-se os intermináveis dias e as incontáveis noites cheias de interrupções pelo tilintar dos carrinhos, pelas tomadas de pulso, medição de temperatura, administração de medicamentos. Tudo sempre igual.

As horas vazias.

O pensamento vazio.

No coração, a esperança do “não há mal que sempre dure, nem há bem que nunca acabe”, do salmo 37: “Entrega o teu caminho ao Senhor, confia nele e Ele tudo fará” e do hino “Eu sei que é sabedor, do meu sofrer, da minha dor, mas sei também que o meu penar em gozo pode transformar”.

E assim foi. Num dos exames, os médicos perceberam que eu já sentia as picadas nas pernas. Aí tiraram a sonda da minha bexiga. Daí em diante eu já podia ser levada a um terraço na cadeira de rodas.

O terraço dava para a Avenida Rebouças.

Eu via as árvores.

Eu contava os carros.

Contava até cem.

Ai, a coisa pegava.

Eu me atirava da cadeira de rodas.

A enfermeira chegava, brigava comigo, mas eu não chorava.

No dia seguinte, eu fazia de novo. Não sabia por quê. Eu fazia. Eu me jogava e pronto!

Deixava elas gritar.

Não sei o que dava na minha cabeça.

Até hoje não sei.

Tinha muito medo delas, mas eu me jogava.

Eu tinha tanto medo!

Tudo era tão brutal, tão inaceitável!

Finalmente, os médicos me enviaram para a fisioterapia. Que estranho!

A fisioterapeuta dizia que eu devia rolar no chão, mas eu tinha muita dificuldade.

Que absurdo!

Um belo dia, eu consegui. Eu rolei!

Depois, ela queria que eu engatinhasse.

Mas, como?

Eu não era capaz!

Até que um dia, eu fui capaz!

Meu Deus! Que felicidade! Eu engatinhava!

Eu engatinhava e ela cantava sambas da Ângela Maria.

Até que um dia ela me colocou nas barras de ferro para que eu andasse e assim, com muito medo, muita vergonha, só, só e sem incentivo algum (na época ainda não se aplicava a psicologia) eu andava me segurando nas barras.

Mais ou menos naquela época vieram uns artistas para o HC para festejarmos o natal.

Fui levada, junto com muitos outros pacientes, para um grande salão, onde os artistas deram um show! Havia muita alegria. Havia palhaços, cantores, bailarinas. Havia cores, movimento e música porque se aproximava o Natal.

A dor foi vencida pela vida.

Eu ainda acordava durante a noite achando que a qualquer momento alguém teria que me medicar ou sentir o meu pulso. Mas não, veio à paz.

Havia seqüelas. Mas, aquilo nunca foi relevante para mim.

Que importava?

O que importava é que eu novamente podia ver o céu, as nuvens, os rostos de quem eu amava.

Eu brincava e sonhava novamente.

Adeus, pesadelo!


2o  LUGAR

 

GISELE  HENRIQUES

Cametá  - PA

 Feira de ciências

 

O evento mais esperado do ano no Colégio São Sebastião era a Feira de Ciências, onde os alunos poderiam então colocar em prática toda a sua criatividade. “Trabalhos científicos” de todos os tipos, usando os mais diversos materiais, ficavam expostos por três dias.

Naquele ano em questão, o gostinho de rivalidade falava mais alto: era a primeira vez que o Colégio São Sebastião participava do Campeonato Intermunicipal de Ciências. Todos os alunos teriam que formar equipes para participar. Todos se esforçando muito para apresentar os projetos de ciências mais criativos e até quem sabe, ganhar o prêmio de Melhor Equipe do Estado...

Não só o reluzente troféu, as medalhas, o certificado e o computador enchiam os olhos dos alunos. Era a chance de ser reconhecido como aluno mais inteligente, dedicado, astuto, “Virar celebridade na escola”. Só isso, já rendia empolgação e dedicação de noventa e nove por cento do Colégio.

O um por cento restante era representado pela equipe “Street Fighters”: Julio, Pedro, Ruan, Tiago e Denis não tinham a menor paciência para Ciências, sentavam nas últimas carteiras da sala, e as únicas recordações que tinham das aulas eram das histórias dos gibis dos X-Men que leram, dos aviõezinhos, bolinhas e bilhetes que atiraram, das gracinhas que fizeram....

Naquela tarde não houve aula, e sim preparações para a apresentação dos trabalhos na Feira.  Enquanto todos os alunos do colégio reunidos no pátio em mesas, uma para cada equipe cortava, colavam e montavam maquetes, os cinco “Street Fighters” conversavam, desinteressados:

Que babaquice, caras. Eu preferiria estar na aula... - diz Tiago.

é mesmo, isso é um tédio. Nem sei pra que fazer Feira todo ano, se vão apresentar os mesmos trabalhos...tem coisa mais batida do que ver um “vulcão em erupção”? e os “sapos venenosos e não venenosos”?? pior ainda o “sistema solar de isopor”!- responde Pedro.

O pior de tudo, é que batidos ou não, todos estão quase prontos. E nós, o que vamos apresentar??? – diz um nervoso Julio.

Eu também pensava nisso...sinceramente, eu quero fazer um trabalho sobre algo que eu goste – responde Denis.

E só tem uma coisa que todos gostamos... – completa Ruan.

Videogame!!! – respondem todos juntos, rindo.

Mas vocês acham possível? A diretora vai nos matar!! - Julio pergunta, mais nervoso ainda.

Ou não. Todo ano é a mesma mesmice. Nosso trabalho  seria diferente. Temos todo o  material pronto,  só precisamos organizar! - diz Denis.

Até ai tudo bem. Mas desde quando videogame é ciência?? - pergunta Julio, com cara de bravo.

PROFESSOR!! ELETRÔNICA É CIENCIA ?? - grita Denis.

É sim, filho! – responde o professor, desatencioso.

Viram? Já temos nosso sim! – Diz um animado Denis.

ai, ai, ai, isso vai dar confusão... – Julio suspira.

A diretora, com um sorriso forçado, vai inspecionar os trabalhos dos alunos. Todos prestam atenção em sua presença, e ela resolve fazer um pequeno discurso:

Boa tarde, crianças! Vejo que estão trabalhando bastante!  Amanhã, vocês  já podem começar a montar  os stands com seus trabalhos, a partir das sete horas da manhã; a abertura da nossa exposição será às dezoito horas, com a presença  da nossa querida prefeita da Cidade e de seus assessores. Com muita sorte, poderemos até ter uma reportagem no jornal local.

Glup!  -  todos os alunos sentem o peso da responsabilidade.

Quero que vocês ao saírem, preencham a ficha de inscrição dos trabalhos e peguem o número de seus stands e as credenciais. Lembrem-se: este evento é de suma importância para o nosso Colégio...

Todos conversam entre si, enquanto a diretora vai conferindo os trabalhos um a um. Os cinco ficam calados e quietinhos, na esperança de serem esquecidos. Porém ...

Hei, e vocês? Porque a mesa vazia?? – a diretora os pega de surpresa.

Não diretora, é que nossa experiência é tão grande que não cabe na mesa.. – diz Ruan, enquanto os outros reprimem os risos.

A diretora torce a boca e diz, ironicamente:

Só quero ver amanhã, hein?

Todos liberados, na hora de preencher a ficha, Ruan viaja na maionese ao preencher como tema do trabalho: “Uma abordagem prática sobre informática aplicada ao Entretenimento Virtual”, deixando os alunos da fila e o professor curiosos, fazendo perguntas a eles e entre si. Os Street Fighters somente dizem:

Aguardem...

Os cinco saem correndo e rindo do próprio desespero pelas ruas, pensando no que fazer. O mais equilibrado é Denis:

Gente, vamos pra minha casa...

Na casa de Denis, uma reunião no quarto:

Seguinte: nós somos cinco. Precisamos de cinco televisores. Todos temos TV no quarto. Games, temos vários em casa. Revistas também. É só separar o material mais legal e mãos a obra!!

Falar é fácil... – tinha que ser frase do pessimista Julio.

 ... E fazer também, é só querer! – completa Ruan, animado.

Amanhã, todos em casa, logo cedo! – exclama o decidido Denis.

O correto seria se reunirem às seis horas, ir para o colégio, começar a arrumar o stand às sete... mas todos acordam tarde e começam a chegar na casa do Denis às onze horas.

Caramba, os mauricinhos já devem ter aprontado tudo.

Vamos almoçar e arrumar tudo de tarde, dá tempo...

Às quatro horas da tarde, lá estão os cinco correndo de televisor nas mãos e mochilas nas costas. Chegaram arfando no Colégio.

Puxa, não pensamos nas mesas...

Correm pelas salas de aula a procura de mesas grandes. Por sorte, encontram sete mesas livres. Organizam games e tvs, colam pôsters nas paredes e pedem à diretora para usar o computador da secretaria. Imprimem plaquinhas para classificar os aparelhos por marca: ATARI / SUPER NINTENDO / MEGA DRIVE / NINTENDO 64 / NEO GEO CD, e pequenos cartazes com textos do tipo: 1 BYTE =8 BITS, que os professores leigos em informática interpretam como pesquisa. Penduram balões coloridos no stand, e em pouquíssimo tempo (cerca de quarenta minutos) está pronto o stand do trabalho

“UMA ABORDAGEM PRÁTICA SOBRE INFORMÁTICA APLICADA AO ENTRETENIMENTO VIRTUAL”.

Mais despreocupados, riem e brincam, entre si e com os outros colegas de classe, visitam os stands, debochando da “mesmice anual”.

Enfim, dezoito horas. Resolveram ficar para a visita da Prefeita. Formar para cantar o hino da cidade e do colégio. Alguns dançam, cantam e representam homenagens, sob o olhar complacente das autoridades, desmotivado dos alunos e debochado dos meninos.

A diretora, a prefeita, e uma infinidade de professores, funcionários e puxa sacos vão visitar os stand, os alunos dirigem-se cada um aos seus...

Ruan liga o emaranhado de fontes, tomadas e extensões nas tomadas, liga os cinco games e as imagens coloridas surgem nas cinco telas, deixando o local mais alegre. Enfim, a comitiva chega ao stand.

Nossa que colorido! – diz a prefeita. Todos sorriem.

Muito bom, viu? – continua ela, envaidecendo os meninos.

Todos retiram-se, por último sai a diretora, não sem antes provocar:

E cadê o projeto de vocês?

Projeto...- diz Denis, falsamente tentando lembrar.

Sim, o que vocês montaram. Só vejo uns videogames ligados...

Ah, o projeto! Perdoe-me, ficou em casa, na pressa, esqueci de trazer. Não tem problema, né? – Disse um ator perfeito, Ruan.

Os cinco entreolharam-se: como fazer um projeto de um videogame???

Ao voltar para casa, preocupados, andavam e conversavam sem parar pelas ruas:

Estamos fritos, a diretora no nosso pé... – era a reclamação geral.

Caras, fiquem frios! Já pensei em tudo. – diz Ruan

Então, diz a resposta, sabichão! – reclama Julio.

Vamos ao lixão? – responde Ruan.

Os cinco surgem em duas bicicletas no lixão, onde não entendem direito o plano de Ruan. Que explica:

Agora é só procurar uma carcaça de game, entenderam?

Encontram umas três, e as levam para a casa de Tiago, que desparafusa a tampa dos consoles velhos, limpa, conserta alguns chips com o ferro de solda de seu pai, para no dia seguinte, exibiram com orgulho numa grande bandeja de alumínio da mãe de Pedro (que emprestara gentilmente a bandeja a seu filhinho), a maior das invenções da feira de ciências do Colégio São Sebastião, com direito até a placa de papel laminado dourado:

“VIDEOGAME MONTADO À MÃO PELA EQUIPE STREET FIGHTERS”.

Em sua visita matutina ao stand, a diretora observa a “experiência” dos Street Fighters, mordendo os beiços, pensando:

Ok, vocês venceram. Desta vez passa... mas mais cedo ou mais tarde, estarão suspensos por indisciplina...

Nas primeiras visitas abertas ao público, Ruan recepcionava a todos enquanto os Fighters passeavam nos stands vizinhos. Os alunos observaram estupefatos a tudo. Até que veio o pedido.

Deixa-a jogar, colega?

Quê? Meu, ta doido... claro que não!!! – Ruan responde, pensando na bronca da diretora.

Deixa, vai?...?

Então, me paga dois mangos. – falou, sem pensar que seria levado a sério.

Tudo bem, cara! Toma! Quero no Mega!

Ruan percebeu que se travava de um mercado em potencial. Chama os colegas aos gritos, que se reúnem rapidamente.

Vamos fazer do stand uma locadora? – propõe, na lata.

Pirou? E se descobrirem?

Não vai dar, nada... e tem tanta gente aqui para se preocuparem, que ninguém vai notar. Ó, o Lucas da Quinta B já esta até jogando. Pagou dois paus.

Legal!!! É, vamos fazer! – Denis, Pedro e Tiago estão animados.

Mas, - inicia Julio

Ah, cala a boca !!! todos dizem .

Saldo da feira de Ciência do colégio São Sebastião: o stand da equipe Street Fighters era o mais animado no ano. O play game foi bem, a dois mangos a hora. Os meninos juntaram toda a grana dos dois dias em uma lata de Nescau vazia. no final do evento, após desmontarem e devolverem às suas casas todo o material, foram até a lanchonete mais próxima, abriram a lata e gastaram toda a grana com sorvetes e lanches. Não sabiam que posição ficaram no ranking, ou quem havia sido classificado para o intermundial, nem  viram a premiação, mas era certo que estavam muito felizes.


3o  LUGAR

 

NILTON GONÇALVES DA ROCHA

São Paulo - SP 

A menininha que sonhava

 

Madeusa morava com sua família num pequeno barraco, ela gostava de contar histórias para seus irmãos, mas eles pediram para contar ou cantar algo que nunca tinham ouvido.

Na noite de natal, ela pediu ao papai do céu que fizesse com que ela tivesse sonhos, sonhos com lindas canções e historias para poder contar a seus irmãozinhos, queria ver um sorriso em cada um.

E ela sonhou.

Sonhou que num vilarejo nasceu um menino muito bonito. A parteira ajudando a mãe a Ter esse bebê, era aguardada pelo pai.

O choro irrompeu pela janela e até as aves saíram voando, talvez anunciando o nascimento de Yan.

O menino nasceu com problemas. Não tinha visão. Isso entristeceu a família, mas sua beleza e alegria deram um conforto a eles.

Assim o menino foi crescendo e seus pais logo perceberam que Yan gostava dos cantos dos pássaros, ele ficava horas sentado embaixo de uma imensa árvore ouvindo o cantar dos passarinhos .

Aos seis anos de idade seu pai resolveu comprar uma flauta para ver se o animava, pois no inverno os pássaros iam para um lugar mais quente, e o menino sentia muita falta do cantar das aves, mas Yan não gostou do instrumento, seu pai comprou uma gaita, ele nem ligou, uma violinha, também não, mas numa manhã o menino ouviu um som que nunca ouvira antes, era um lindo piano que ecoava uma melodia maravilhosa.

Na primavera quando os pássaros voltaram , seu pai colocou o piano embaixo do carvalho é uma mágica aconteceu. Para  cada canção que os pássaros cantavam, Yan Tocava no piano, parecia que as aves ensinavam o menino a tocar, a cada dia que passava o menino aprendia uma canção diferente, ele era feliz, muito feliz com seus amiguinhos.

As aves pousavam no piano, ele tocava e os pássaros cantavam, a linda canção irradiava pela natureza toda, era uma verdadeira festa que enchia a floresta de alegria e todos correram para ver aquele espetáculo ao ar livre. Foi então que ele disse aos seus amiguinhos que toda noite rezava para que pudesse enxergar, nem que fosse uma única vez,  ele queria ver todos os seus amigos.

Yan só ouviu o bater das asas, todos saíram voando, ele não entendeu, começou a gritar para eles voltarem, começou a chorar, sua mãe correu para ajudá-lo, ele quis se levantar; caiu e foi levado em soluços pra dentro  de casa.

Passaram-se mais de um mês e nem sinal das aves. porém num dia nublado seu pai não quis levar o instrumento debaixo do grande carvalho.

Desobedecendo, ele pegou o piano e levou até a árvore e começou a tocar bem alto, mesmo após o início da chuva. Nisso num revoar e cantarolar ensurdecedor elas voltaram. Yan ficou de pé com os braços para o alto querendo pegá-las e sentiu que as aves estavam atirando algo em sua cabeça, uma espécie de massa que ia grudando em seu rosto, o menino ficou todo sujo e coberto por essa gosma. Seus pais vendo aquele monte de passarinhos em cima do menino, correram para espantá-los, ele começou a chorar. Seus olhos ardiam muito. Sua mãe lhe deu logo um banho e um chá para acalmá-lo e o menino adormeceu.

Ao acordar, todos tiveram uma grande surpresa, ele estava enxergando, ninguém acreditou, o pequeno Yan recuperou a visão, a euforia tomou conta da família, então, compreenderam que a massa que as aves tinham jogado no menino devolveu-lhe a visão, foi um milagre que jamais aquela família esqueceu, e fez com que Yan fosse a criança mais feliz daquela região.

Esse sonho encantou a todos na casa, e a menina não parou mais de sonhar, desta vez ela sonhou com uma canção que encheu sua casa de alegria.

 

O arco íris tem sete cores

Sete amores também vou ter

O céu e o mar são bem azulados

Só quero seis, dos sete namorados

Fim de semana eu fico tão bela

Dos seis, só cinco vem na minha janela

Todas as estrelas têm cinco pontas

Dos cinco, quatro é que me deixa tonta

Quatro dias eu fiquei doente

Dos quatro, só três me trouxe presente

Três segredos eu tenho guardado

Dos três, só a dois é que foi revelado

Falei aos dois da minha paixão

Dos dois só um me deu ilusão

Dos sete agora só um restou

Foi só um sonho e tudo se acabou

 

A felicidade tomou conta daquela família. Seus irmãos e sua mãe estavam muito contentes. Aquela família estava aprendendo a superar suas dificuldade através dos sonhos, e ela sonhou novamente.

Suzane sempre pegava a caixinha de band-aid para cuidar de suas bonecas, pois dizia para elas que a mamãe a curava assim e ela iria curá-las também.

Sua mãe precisou trazer os avós da menina para vir morar com eles, estavam muito doentes.

Seu Antônio de  73 anos tinha uma constante febre, dores de cabeça terríveis. Dona Helena estava muito abalada com o marido, quase não comia, sentia muita fraqueza, e dores de estômago.

A menina adorou, e disse que iria fazer curativos neles também, assim eles ficariam curados, sua mãe achou graça, e explicou que seus avós estavam muito doentes, mas a criança insistia e sabia que se colocasse band-aid eles melhorariam.

No Domingo sua mãe foi até a igreja e levou-a consigo, queria rezar pela recuperação de seus pais, mas quando a menina viu aquele homem na cruz perguntou a sua mãe quem ele era e porque estava ferido e ninguém cuidava dele, sua mãe lhe disse que era o menino Jesus, a menina queria de qualquer jeito fazer um curativo, queria vê-lo, mas sua mãe explicou que não podia, que ele morava no céu, não adiantou nada. Em sua casa a menina rezava pedindo pro menino Jesus voltar porque ela queria colocar um band-aid no pé dele, nas mãos, enfim curá-lo.

Então um milagre aconteceu.

Sentada no banco da igreja e vendo sua mãe comungar, um homem vestido de túnica branca sentou-se a seu lado e pediu-lhe para Suzane fazer alguns curativos. Ela sempre andava com uma boneca e uma caixinha de band-aid. Logo ela percebeu que era o homem da cruz, curou-lhe as feridas das suas mãos, dos pés e da testa, ele pediu a menina para fazer o mesmo em seus avós que eles também iriam se curar. A menina beijou a face de Cristo e não contou nada pra sua mãe quando chegou na sua casa, foi até o quarto de seus avós quando eles já estavam dormindo e fez diversos curativos.

Na manhã seguinte, os avós de Suzane estavam curados. A menina de seis anos disse que tinha feitos curativos no menino Jesus que tinha sentado ao seu lado na igreja, e ele pediu a ela que fizesse o mesmo em seus avós. A menina que curou Jesus, também curou todos de sua casa.

Realmente, os sonhos de Madeusa fizeram com que todos em sua casa superassem as dificuldades imposta pela vida, ela nunca esqueceu de agradecer ao menino Jesus por dar-lhe esse Dom de sonhar e fazer as pessoas sonharem também.